
Perguntaram-me há dias porque é que o Chiado faz parte do nosso património - deixo aqui a resposta.
"O Chiado faz parte do nosso património porque o Chiado é o coração de Lisboa - o lugar que resiste e não morre.
Renasceu depois do terramoto de 1755 graças à visão iluminista do Marquês de Pombal que, apesar de publicamente não ser apontado como um defensor dos ideais maçónicos se socorreu de dois irmãos: os arquitectos Carlos Mardel e Eugénio dos Santos.
A olhares profanos ou a olhos menos atentos, toda a Baixa Pombalina esconde um imenso manancial simbólico: ruas traçadas a régua e esquadro para aprendizes e companheiros e, um pouco de compasso para os Mestres. O Marquês, contando com a genialidade simbólica de Mardel e Eugénio, fez da sua cidade um gigantesco Templo e quem sabe uma pequena "câmara do meio". Tudo a céu aberto desafiando as mentes da época e do futuro.
O Chiado é uma área-chave da estrutura de Lisboa, da sua imagem e da sua memória. Por isso a história do Chiado é também e, principalmente, a história dos seus edifícios.
Na Igreja dos Mártires foi baptizado Fernando Pessoa em 1888.
Na antiga paróquia dos Mártires administrou-se em 1147 o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos mouros.
Franz Litz tocou no Convento do Carmo.
A Brasileira, O Tavares e o Grémio Literário estão entre os cafés, restaurantes e clubes do Chiado que se tornaram autênticas instituições de Lisboa e de Portugal. Não eram apenas locais de convívio, eram também centros difusores de novas ideias culturais e políticas, pontos de encontro de artistas e de escritores, de intelectuais e de homens de Estado. Almeida Garret, Alexandre Herculano, Fontes Pereira de Melo, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro, António José de Almeida, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Aquilino Ribeiro, M Helena Vieira da Silva e, o homem que mais o fez viver na sua obra : Eça de Queirós.
Terreno privilegiado para o florescimento de inúmeras tertúlias, o Chiado é também a zona por excelência das grandes instituições culturais. A Academia Nacional de Belas Artes, o Teatro de S.Luis e o Teatro Nacional de S. Carlos. Foi neste último que o futuro hino da República e de Portugal teve a sua apoteose durante uma récita a favor do movimento nacional contra o Ultimatum . É verdade "A Portuguesa" nasceu no Chiado - Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça moraram neste bairro.
E, mais recentemente depois do incêndio de 1988, esse mesmo Chiado voltou a renascer!